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22.7.03

Indígenas e Nativos 
A especificidade do colonialismo contemporâneo não resulta somente do facto de afirmar sociedades que se julgam superiores, mas do facto dessas sociedades justificarem a sua superioridade na ciência e, particularmente, nas ciências sociais. A situação colonial não pode, por isso mesmo, ser encarada apenas como um modelo de gestão política, económica e social, correspondente a uma determinada fase da evolução das economias e políticas do Ocidente. Ela deverá ser perspectivada, também, na sua dialéctica de permuta de dados culturais em que o seu carácter agonístico deriva da natureza impositiva e assimétrica das culturas em confronto. Daí que a situação colonial, como realidade objectiva, constitua o fecho do ciclo da percepção da alteridade iniciada no século XVI: num extremo — e após a fase da constatação, levantamento e inventariação do exótico — o modelo iluminista do «bom selvagem», domínio de uma alteridade homogénea e auto-suficiente, objecto de um «olhar distanciado» [glosando o título de uma das últimas obras de Lévi-Strauss (1983), Le Regard Éloigné]; no outro extremo desse ciclo, a situação colonial, com toda a sua carga de intervenção, reduzindo ou amplificando os factores da alteridade, consoante as suas necessidades ideológicas (as tais «pseudojustificações e comportamentos estereotipados» a que se referia Georges Balandier na sua definição de «situação colonial»). Tal alteridade é sancionada ideologicamente pela segmentação básica da sociedade colonial entre «civilizados» e «indígenas», isto é, tal discriminação identifica a coesão do sistema colonial através da redução dos autóctones à categoria de uma criação da natureza e de um objecto:
«Toda a gente sentiu o que há de depreciativo na palavra indígena que é utilizada para designar os nativos de um país colonizado. O banqueiro, o industrial, o próprio professor da metrópole não são indígenas de nenhum país: nem sequer são nativos».[Jean-Paul Sartre (1949), «Matérialisme et Révolution»]
Esta «coisificação» do colonizado [foi Aimé Césaire (1950) quem primeiro estabeleceu a equação «colonização=coisificação» em Discours sur le colonialisme] conduz-nos a uma noção operatória muito pertinente para a Antropologia — a oposição natureza / cultura — e que para a situação colonial se demonstra perfeitamente operativa se aplicada, por exemplo, à análise da política colonial portuguesa nas suas variadas e sequenciais assunções assimilacionistas. Com efeito, mesmo nos casos de não aplicabilidade da política colonial de indirect rule [administração indirecta], as diferentes potências coloniais implementaram em África sociedades dualistas, umas dotadas de uma parte urbana, usufruída por «brancos» e «assimilados», onde as regras políticas imitavam as da metrópole e outras dotadas de uma parte de «mato», habitadas por «não civilizados», onde as regras políticas da parte urbana não se aplicavam [T. Biaya (1998), «Le Pouvoir ethnique – concept, lieux d'enonciation et pratiques contre l'État dans la modernité africaine: analyse comparé des Mourides (Sénégal) e Luba (Congo-Zaire)»]. Tornar-se-ia possível, portanto, pensar uma Antropologia do Colonialismo, sobretudo nas suas implicações simbólicas.

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