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18.8.03

Capitais, Investimentos e Exploração 
Está por fazer um estudo global sobre a Companhia de Moçambique, envolvendo os seus aspectos históricos, políticos, económicos e sociais, pelo que a partir dos muitos estudos parcelares até agora concluídos poderemos obter, apenas, uma imagem incompleta do que foi aquela companhia majestática. Por exemplo, uma das questões ainda não cabalmente resolvida é esta: o modelo económico de companhia majestática fornecia proventos consideráveis aos seus empreendedores? Ou ainda esta outra questão: as companhias majestáticas reinvestiram nos territórios concessionados, concorrendo para o seu desenvolvimento, como se obrigavam na letra das cartas de concessão? Por outras palavras, trata-se de procurar saber qual a rentabilidade do modelo, levando em atenção, igualmente, os objectivos políticos a que se propunham. A julgar pela perdurabilidade da Companhia de Moçambique tudo levaria a crer estar-se perante um modelo económico relativamente rentável. Contudo, algumas fontes acessórias parecem questionar essa rentabilidade. Com a devida vénia, reproduzimos de seguida alguns excertos retirados da página do Banco Standard Totta de Moçambique (http://www.bstm.co.mz/historia.htm) em que se narram as tentativas, pouco conseguidas, de estabelecimento nos territórios da Companhia de Moçambique:
«Em 1895 tornou-se possível a ligação entre as cidades da Beira e Chimoio por via-férrea, dando mais alento às possibilidades de negócio especialmente com a Rodésia. Mas, devido ao mau clima da Beira e a um acordo implícito entre o Bank of Africa na Beira (havia-se instalado na Beira em 1890) e o Standard Bank em Umtali, em que ambos se comprometeram a não se imporem no território um do outro, o Standard Bank não se apressou a estabelecer-se naquela região.
A Beira conhece neste período um desenvolvimento gradual motivado pelo crescimento das transacções efectuadas por via-férrea e pelo avançar da linha-férrea em direcção ao interior. É nesta perspectiva que o Bank of Africa resolve, inesperadamente, estabelecer-se em Umtali, violando o acordo anteriormente firmado com o Standard Bank. O Standard sentiu-se obrigado a revidar-se enviando logo de seguida C.J. Syme para a Beira com o propósito de abrir uma Agência.
As pretensões de J. C. Syme tornam-se, numa primeira abordagem, infrutíferas pois o Governador Machado, que anteriormente havia assegurado certas concessões ao Bank of Africa, com a justificação de que havia atribuído direitos bancários exclusivos na Beira ao Bank of Africa, não autoriza a abertura de uma Agência do Standard Bank. Após delicadas conversações, o Governador reconsiderou a sua posição inicial, autorizando a abertura da agência do Standard, o que veio a acontecer no dia 28 de Setembro de 1896. No ano seguinte, a Agência da Beira instala-se num novo edifício com três salas, no rés-do-chão da sede dos Caminhos de Ferro da Beira.
Devido a prolongada depressão nos fins da década de 1890, a política do Standard foi necessariamente restrita. Apesar das dificuldades predominantes, o Banco esperava sobreviver à depressão sem prejuízo, visto que ambas as Agências na costa se haviam tornado indispensáveis para as suas operações.
Em 1901 o Standard adquiriu o terreno defronte à Praça Luís Ignácio, na Beira, aos senhores Fabre et Fils, com a intenção de construir a sua própria sede, deixando de lado aquela que até então era sua prática: o aluguer de espaço. O novo edifício, acabado de construir em 1902, era constituído por dois andares e considerado o edifício mais vistoso da cidade, oferecendo acomodação suficiente para as necessidades da Agência por longos anos.
[...]
Ao dobrar o século, os interesses na exploração do ouro aumentaram significativamente mas não o suficiente para, a par do negócio das cantinas da cidade, dar um novo impulso ao desenvolvimento da actividade bancária naquela região. Daí que em 1901 o Governador de Manica e a Companhia de Moçambique manifestam o seu interesse em ter uma agência do Standard Bank em Macequece, concedendo instalações grátis no prédio onde estava instalado o Governo local. Embora relutante, o Standard Bank aceita o convite mas na condição de se retirar quando quisesse. No dia 2 de Junho de 1902, o então Gerente da Agência da Beira, senhor J.J. Toogood, inaugura a agência de Macequece, passando tempos depois o testemunho para as mãos do senhor J.T. Gregson. Dois anos após a sua abertura, mais precisamente no dia 31 de Outubro de 1903, a Agência de Macequece fecha as portas, sendo os poucos recursos que a região oferecia e o estado precário das instalações os principais motivos para que tal acontecesse. Em 1906, como consequência do vazio deixado pelo Standard Bank naquela região, o Bank of Africa inaugura as suas instalações, o que vai motivar a transferência da conta da Companhia de Moçambique na Agência do Standard Bank na Beira para o Bank of Africa em Macequece. [...]
O interesse do Standard Bank no potencial de Vila Fontes despertou quando, em 1911, se soube que foi proposto a extensão da linha-férrea de Port Heraald para o Zambeze, em Vila Fontes, com o início das obras previsto para 1912. A Companhia de Moçambique tencionava transferir os funcionários públicos de Sena para Vila Fontes, passando a ser esse povoado o local apropriado para a existência de uma agência bancária. A Companhia havia de trabalhar com o banco que se estabelecesse primeiro. Porém, para que qualquer banco ali instalado fosse viável, tinha também de, necessariamente, assegurar a conta da Sena Sugar Factory Ltd. Essa companhia monopolizava tanto o negócio como também as transacções bancárias na região. Esperava-se que, com a presença de um Banco, novos investidores pudessem ser atraídos para a região. É no seguimento deste processo que à partir de 1 de Março de 1912 o Standard Bank arrenda, no talhão n.º 98 em Vila Fontes, umas instalações constituídas por duas salas espaçosas e uma varanda, sendo o prédio de madeira e zinco e pertencente a Companhia de Moçambique. No dia 18 de Março do mesmo ano a Agência abriu as portas ao público. Embora o Banco tenha adquirido o talhão n.º 74 em Vila Fontes para a construção de um prédio pré-fabricado, o plano não chegou a ser levado avante. A Agência trabalhava com alguma dificuldade que se saldava em enormes prejuízos e, a título de exemplo, até final de 1914 só tinha 39 contas correntes das quais 15 deveriam fechar logo que terminasse a construção da linha-férrea, mas precisamente em 1915. Como consequência, o Banco é obrigado a encerrar as suas instalações em Vila Fontes a 22 de Janeiro de 1915».
Do que acima se transcreve algumas conclusões se podem retirar, mesmo que extemporâneas e passíveis de serem contraditas por outras fontes. Em primeiro lugar torna-se evidente que localmente existia pouca liquidez de capitais, isto é, não ocorriam actividades económicas significativas a jusante do modelo de exploração económica da Companhia. Em boa verdade, e todas as outras fontes o confirmam, tratava-se de um sistema que combinava o extractivismo monopolista com a mais primitiva exploração da mão-de-obra indígena. Em segundo lugar, torna-se de igual modo evidente que os resultados de exploração da Companhia de Moçambique eram encaminhados para o exterior, com pouco reinvestimento nos territórios concessionados. A durabilidade da Companhia de Moçambique (1888-1941), de todo o modo, parece indicar que o modelo era suficientemente rentável para os seus empreendedores, tanto mais que, ao arrepio do estipulado na Carta de concessão, nunca se sentiram compelidos a reinvestir nos territórios concessionados ou a cumprir as «obrigações sociais», como sejam, entre muitas outras, a construção de escolas e estruturas hospitalares.

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