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21.8.03

Uma ciência imperial - I 
A afirmação institucional da antropologia portuguesa, ainda que de uma forma titubeante, remonta à segunda metade do século XIX. É preciso lembrar, mesmo que sumariamente, que em Portugal, como na maior parte dos outros países europeus, o desenvolvimento dos estudos etnográficos, o afã de recolhas de folclore e o interesse pelos «estudos populares», tanto no campo académico como no domínio literário, estavam manifestamente associados à busca de uma identidade nacional. Nomes como os de Oliveira Martins, Consiglieri Pedroso, Adolfo Coelho, Teófilo Braga, Rocha Peixoto, Alberto Sampaio e Leite de Vasconcellos, evocam a figura de brilhantes cientistas sociais em permanente contacto com as escolas e teorias que então se desenvolviam em Inglaterra, em França e na Alemanha: as obras de Adolfo Coelho e Oliveira Martins demonstram, pela evocações bibliográficas nelas contidas, uma actualização aos debates científicos da altura, a colecção de contos de Consiglieri Pedroso começou por ser publicada em Inglaterra em 1882 (só viria ser editada em língua portuguesa em 1910) e Leite de Vasconcellos concluíu o seu doutoramento na Sorbonne em 1901. Como já alguém recordou [João de Pina Cabral, 1991, Os Contextos da Antropologia], «o anacronismo académico, que foi uma característica tão visível na nossa área disciplinar entre as décadas de 1930 e de 1970, não era, de forma alguma, aparente na segunda metade do século passado». Essa geração procurava uma resposta para a questão básica que tem atravessado a cultura portuguesa dos últimos cento e cinquenta anos, «descobrir quem somos e o que somos como portugueses» [Eduardo Lourenço, 1978, O Labirinto da Saudade], interrogação que se tornou amarguradamente pertinente na última década de Oitocentos, com o Ultimato inglês a coroar uma profunda e generalizada crise económica e política. Primeiro, a Conferência de Berlim, em 1884-85, depois o Ultimato, em 1890, cercearam decisivamente as pretensões de Portugal em assumir-se como uma grande potência colonial. As elites intelectuais, desiludidas com o destino imperial de Portugal, passaram a buscar na história e na cultura popular uma grandeza nacional perdida, desencadeando uma intensa produção ideológica em torno da questão da nacionalidade, suas raízes históricas, condições e circunstâncias da existência da nação portuguesa.

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