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22.8.03

Uma ciência imperial - II 
Evocando os desaires coloniais de finais de Oitocentos (Conferência de Berlim e Ultimato inglês), há quem pretenda ver neste encadeado de factos históricos a origem da falta de uma tradição colonial da antropologia portuguesa. Parece-nos, todavia, uma asserção demasiado apressada até porque, desde 1875, a Sociedade de Geografia de Lisboa vinha mantendo acesa a chama do imperialismo colonial português. Isto é, a par desse ensimesmamento nacionalista e mau-grado os desaires de 1885 e 1890, a corrente colonialista acabou por fazer impor a sua vontade. A esse propósito, a própria evolução do pensamento de Oliveira Martins quanto à questão colonial é muito elucidativa. Em O Brasil e as Colónias Portuguesas [1ª edição, 1880], reflexão aprofundada sobre o conjunto das colónias portuguesas e seu lugar na política nacional, Oliveira Martins revela um certo «cepticismo radical» [a expressão é de Valentim Alexandre, 1996, «Questão nacional e questão colonial em Oliveira Martins», Análise Social, vol. 135] quanto à viabilidade do império e aos benefícios que daí adviriam para Portugal, advogando, até, a alienação imediasta de parte das possessões portuguesas: «… alienar mais ou menos claramente, além do Oriente [Timor, Macau e Índia Portuguesa], Mocambique, por enfeudações a companhias; abandonar protectorados irrisórios e domínios apenas nominais, e congregar as forças de uma política sábia e sistemática na região de Angola …». Da leitura do texto de 1880 ressaltam, ainda, duas ideias: as colónias africanas seriam permanentemente deficitárias e a sua manutenção empobrecia Portugal; a conservação das colónias não era necessária para a preservação da identidade nacional. Mas esse cometimento quase anticolonialista desvanecer-se-ia completamente em finais da década de 80 e começos da seguinte. Após a sua adesão ao Partido Progressista, Oliveira Martrins enfeuda-se, em 1886, no apoio à política governamental para as colónias e na sequência da crise do Ultimato deixa-se contaminar pela exaltação nacionalista: o «património colonial» seria indispensável ao bem-estar de Portugal e a questão colonial tinha-se tornado «vital para o país» [Oliveira Martins, 1957 (1.ª ed. 1890), Política e História; 1891, Portugal em África. A questão colonial. O conflito Anglo-Portuguez]. No computo final do último quartel do século passado foram as teses imperialistas, como a História o veio a demonstrar, que impuseram a sua vontade: os centuriões (António Enes, Mouzinho de Albuquerque, Paiva Couceiro, Teixeira Pinto e outros) avançaram para a ocupação efectiva sustentada em «campanhas de pacificação». A última década do século XIX foi, manifestamente, um tempo de empenho colonial e se a antropologia portuguesa, então emergente, voltava costas ao terreiro colonial não era por falta de «oportunidade», mas sim por falta de «utilidade».

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