<$BlogRSDUrl$>

31.8.03

Uma ciência imperial - V 
Em Portugal a dominância da Antropologia Física manteve-se quase por toda a primeira metade do século XX: mesmo as raras cadeiras de Etnologia que, posteriormente, se começaram a afirmar nos currículos das universidades — como a cadeira semestral de Etnologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra que Jorge Dias foi em 1952 convidado a reger — não escapavam a uma «mistura de raciologia com arqueologia» [João Basto Lupi (1984), A Concepção de Etnologia em António Jorge Dias, Braga]. Por outro lado, a geração de Leite de Vasconcellos não se reproduziu no tempo, isto é, no imediato não originou uma «escola» e, como acentuou Veiga de Oliveira [(1976), «Professor Jorge Dias», Revista Portuguesa de Filologia, vol. XVI, Coimbra], após o seu desaparecimento as pesquisas e os estudos etnológicos «…estavam unicamente a cargo de amadores».
Esse hiato entre a geração de Leite de Vasconcelos e a «escola» de Jorge Dias, aliado à falta de uma dimensão «prática» — que a Antropologia Física efectivamente realizava no terreiro colonial — explicam conjuntamente a subalternização da Antropologia Cultural e Social portuguesa durante a primeira metade do século XX. No mesmo período, ao invés, a Antropologia Física, nas suas diversas facetas, soube colher no terreiro colonial a legitimidade e o reconhecimento que lhe permitiram afirmar-se no campo académico a um mesmo nível das ciências exactas e experimentais, de forma a poder assumir-se como uma verdadeira ciência e não mais como um «diletantismo folclorista e arqueológico». Desse modo, a investigação de campo no terreiro colonial que fundamentou e acompanhou a emancipação da Antropologia Física portuguesa deverá ser entendida como uma etapa necessária à afirmação da identidade da nova disciplina. Assim sendo, o momento inicial de certeza de si do colonialismo português foi-o, também, da certeza em si da prática antropológica.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Visitors: