<$BlogRSDUrl$>

8.10.03

A codificação dos «usos e costumes indígenas» - 8: ignorância e preconceito. 
No quadro da sua acção à frente da Secretaria Civil do distrito de Inhambane, e para a prossecução dos objectivos de regulamentação dos usos e costumes em um novo «código de milandos», Pereira Cabral redigiu e enviou a todos os administradores de circunscrição do distrito um inquérito etnográfico de que, até hoje, se desconhecem as respostas, embora seja de supor que se existiram foram utilizadas em obra posterior do autor, o título Raças, Usos e Costumes dos Indígenas da Província de Moçambique. Apensa a esta obra de 1925 apresenta-se um «Projecto de Código de Milandos» demasiado sintético para acrescentar algo de novo aos anteriormente elaborados. No corpo da obra traça-se um quadro etnográfico genérico dos principais grupos étnicos da colónia, mesmo assim cheio de lacunas e com vastas manchas do mapa em branco, além de perpassado por juízos de valor etnocêntricos absolutamente caricatos, não fora o caso de revelarem uma atitude discriminativa irredutível, afinal a essência do próprio colonialismo: «... o indígena é naturalmente mentiroso, mente por hábito ... a indolência no indígena é uma característica congénita da raça …». As imprecisões na designação dos etnónimos são por demais óbvias e a inscrição geográfica dos grupos étnicos, bastas vezes, deixam-se deslocar centenas de quilómetros. Por aí se pode perceber como superficial era o conhecimento etnográfico da colónia, após 3/4 de século de investidas legislativas no sentido do conhecimento de «usos e costumes», intenções logradas não só pelo desleixo, pela incúria, pela desorganização administrativa e política mas também, sabemo-lo agora com Pereira Cabral, pela «leitura» que os agentes da colonização, no terreno, faziam dos propósitos dessas disposições legislativas. De resto, o próprio Pereira Cabral parece ter sido vítima dessa mesma inacção militante. Na introdução à sua obra de 1925, reconhece que o inquérito etnográfico que elaborara em 1916 — enquanto Secretário dos Negócios Indígenas junto do Governo-Geral em Lourenço Marques, cargo que ocupou entre 1915 e 1925 — e que fizera distribuir por todos os distritos do Norte da colónia teve «muito pouco sucesso, pois raras foram as autoridades administrativas que responderam». Prevaleceria ainda, como veremos em próximos posts, aquela modorra administrativa, aquele inconsequente torpor burocrático mesclado, neste contexto, com os mais despudorados preconceitos raciais, uma preguiça ignorante e boçal que faria escola na administração colonial portuguesa e que nem o furor organizativo do Estado Novo conseguiria domar.
[foto: «Inhambane. Depois do trabalho». Apesar de não datados, os postais que temos vindo a reproduzir, deverão ter sido impressos em finais da década de 20, início dos anos 30. Reproduzem, de forma eloquente, a mentalidade colonial da época, sustentada no mais arreigado racismo].

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Visitors: