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7.8.04

O «caso de Pebane»: a reconstrução do mito da antropofagia. 
As alegadas práticas de antropofagia no distrito da Zambézia, na segunda metade da década de 40, tinham despertado nas autoridades administrativas coloniais o pretexto para mais uma sanha persecutória e a afirmação premente da sua missão civilizadora. Júlio Augusto Pires, Inspector Administrativo da colónia que tinha acompanhado Henrique Galvão na sua incursão à Zambézia em 1947, lavraria um memorando para a Repartição Central dos Negócios Indígenas sobre o «caso de Pebane» rematado pelas seguintes conclusões:
«Não se trata de qualquer seita organizada, mas tão sómente de vestígios ainda não eliminados de antropofagia entre os Lomué e, porventura, entre outros povos da Colónia… Os Lomués trouxeram nas suas primitivas ondas imigratórias, este costume já extinto pela intervenção dos princípios da civilização que lhes temos incutido e rigorosas sanções penais com que estes casos foram sempre punidos… Supõe-se que o triângulo Mualama–Mocubela–Mugeba e Gilé seja o foco do antropofagismo Lomué. Os casos verificados em Mocubela e mais recentemente em Mugeba onde, segundo me consta, prenderam mais de uma dúzia de suspeitos, são indícios do que afirmo. Não quero excluir outras regiões».
Em resumo, todos os «indígenas» eram, à partida, suspeitos e passíveis de cometer tão hediondo crime, como se pode depreender das palavras finais. De resto, o memorando evoca outros «casos» e «testemunhos» passados em outras latitudes da colónia, mas sempre antecedidos de um «consta» ou de um «ouvi dizer que para os lados de…». Alertada pelo memorando de Júlio Augusto Pires a Repartição Central dos Negócios Indígenas, no cumprimento de indicações expressas pelo Governador Geral, enviou uma circular confidencial a todos os governadores distritais relatando o caso de Pebane e chamando a atenção para o facto de ser absolutamente necessário mandar investigar rigorosamente qualquer indício de existência de «seitas de homens-leão». O governador da Zambézia já tinha recebido, por seu turno, instruções especiais para reabrir de imediato um rigoroso inquérito aos «casos de Pebane», nomeando para o efeito um administrativo «dos que julgasse mais competente» para instruir o processo. Urgia reconstruir o mito da selvajaria e barbárie indígenas que justificasse a premência da intervenção civilizadora.

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