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27.8.04

Os Álbuns de Santos Rufino - 1. 
Nos últimos anos têm sido publicados em Portugal álbuns fotográficos sobre as ex-colónias. Sucedem-se as tiragens e percebe-se porquê. Uma percentagem importante da população portuguesa tem uma «relação sentimental», quando não biológica, com África. Sobre o verdadeiro sentido dessa relação muito haveria a dizer mas penso que os posts que aqui temos colocado já fornecem um quadro suficientemente compreensível sobre a natureza do colonialismo português e das relações sociais que aí se estabeleceram e que, de alguma forma, permanecem no seio da cultura portuguesa. Muitos desses álbuns fotográficos são editados a partir da recuperação de colecções de postais muito em voga na primeira metade do século XX; outros, reeditam colecções já dos anos 60, peças de propaganda do regime colonial que assim pretendia dar conta do «boom» urbanístico e económico de cidades como Luanda, Nova Lisboa e Lourenço Marques.
Mas a propaganda da causa colonial não foi um exclusivo do tardo-colonialismo português dos anos 60. Empreendedores locais, comerciantes, agentes da administração e da missionação, militares em comissão de serviço, recolhiam e registavam no terreno «vistas típicas e pitorescas» das mais variados aspectos das colónias: panoramas das cidades, edifícios públicos, portos, caminhos-de-ferro, indústrias e casas comerciais, «vida tribal», flora e fauna.
Em Moçambique, durante as décadas de 20 e 30, destacou-se o trabalho de José dos Santos Rufino, fotógrafo, comerciante, dono de «A Portuguêsa» de Santos Rufino, Ltda, livraria e papelaria da baixa de Lourenço Marques.
Em 1929 publicou, em notáveis 10 volumes, Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique de que aqui se deixa fotografia da capa do 1.º volume, «Lourenço Marques. Panoramas da Cidade». Edição de grande aparato gráfico (impressa na África do Sul na casa representante da prestigiada firma alemã de artes gráficas, Broschek & Co.), este 1.º álbum compreende, apenas, 5 fotografias. São, contudo, fotografias panorâmicas, em montagens de 130 x 16 cm, de onde resulta uma visão geral, mas detalhada, da capital da colónia em finais da década de 20. Na contra-capa, o editor mandou gravar, a ouro, os seguintes dizeres:
«Lourenço Marques, um canto da Europa na África do Sul. Cidade moderna, cheia de belezas naturais. Clima explêndido. Uma das terras d’África preferidas como estância de repouso. Cidade de largo futuro comercial e industrial. Hotéis de luxo. Lindos passeios nos subúrbios. Explêndidas estradas de turismo. Banhos de mar. Golf. Pesca».
Edição trilingue (português, inglês, francês), contém, ainda, uma representação gráfica da cidade e um texto de apresentação do Tenente Mário Costa, além de páginas de publicidade à «A Portuguêsa»,a casa comercial de Santos Rufino.
Apesar da vaga saudosista colonial dos últimos anos em Portugal, as fotografias dos álbuns de Santos Rufino não têm sido das mais utilizadas. Os poucos exemplares referenciados estão em bibliotecas públicas, tornando muito difícil a sua integral reprodução para efeitos meramente comerciais. Muito recentemente o Maschamba, do Zé Flávio, fez-nos o favor de relembrar a sua existência, mas parcimonioso como ele raras vezes consegue ser (e ainda bem!) reproduziu, apenas, uma meia-dúzia dessas fotos de Santos Rufino. Pois para aqueles que ficaram seduzidos pelas poucas imagens que aí foram mostradas, o «Companhia de Moçambique» irá reproduzindo, nas próximas semanas (quiçá meses, porque nem sempre há disposição e, sobretudo, tempo) as mais significativas imagens dos 10 álbuns de Santos Rufino.

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