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8.8.04

Os «Mau-Mau» em Moçambique ou a geografia do impossível. 
Em 2 de Abril de 1948 o governador da Zambézia recebe, em «Nota Confidencial», instruções especiais da Repartição Central dos Negócios Indígenas para reabrir o inquérito ao «caso de Pebane»:
«(...) 4- Em face dos bárbaros crimes que constam do referido processo, torna-se urgente libertar as populações indígenas da Colónia de elementos tão perniciosos e uma enérgica repressão, não só servirá de lição aos criminosos que ainda se encontrem em liberdade, mas também de aviso e exemplo aos que, porventura, tenham tendência à prática de feitiçaria, por isso que, uma vez entrados nela, estão implicitamente no caminho do crime, e este, pela forma como é consumado, exclue, por vezes, a possibilidade de chegar ao conhecimento das autoridades, ficando, assim, impune.
5- É de crer que um combate inteligentemente orientado, em que não faltem medidas enérgicas de repressão, debelará o mal, que deve ter ramificações em Mugeba, Munelala e outros postos do distrito
[Zambézia], estendendo-se, possivelmente a rede da “seita” ao Lago Niassa, penetrando no Quénia, onde ultimamente se têm descoberto casos de antropofagia, que as autoridades inglesas têm punido com pena de morte. Deve tratar-se de componentes da tribo Lomué, e daí a necessidade das investigações recaírem, principalmente, nessa tribo, que sendo de origem Macua é, certamente, a mais atrasada de todas as que habitam o norte da Colónia».
Esta nota confidencial, assinada pelo Chefe da Repartição Central dos Negócios Indígenas, o inspector A. Furtado Montanha, merece uns quantos comentários e informações adicionais. Antes de mais, atesta o profundo desconhecimento não só da geografia como também da etnografia da colónia. Montanha imagina uma relação quase umbilical entre os Lomué da Zambézia e as primeiras manifestações proto-nacionalistas de um fenómeno que, anos mais tarde, ficaria conhecido como o movimento «Mau-Mau» do Quénia, com um atalho através do lago Niassa, num inimaginável salto de alguns milhares de quilómetros; mais, quase se pode depreender das suas palavras que os casos do Quénia eram de origem Lomué, quando se sabia, já na altura, que o fenómeno tinha uma inscrição étnica essencialmente Kikuyu, grupo com o qual os Macua-Lomué não têm qualquer afinidade histórica ou cultural, apesar de serem, do ponto de vista linguístico, povos bantu como largas centenas de outros grupos étnicos africanos. Entre a ignorância e a manipulação mais ignóbil, tudo servia para o propósito da justificação da dominação colonial.
[Foto: Guerreiros «mau-mau» na região de Meru, Quénia, ca. 1951].

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