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23.12.04

Os Álbuns de Santos Rufino - 34: o comércio indiano. 

«O Bairro comercial dos monhés. A Rua da Gávea e a Travessa da Palmeira», em João dos Santos Rufino, Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique, vol. III («Lourenço Marques. Aspectos da cidade, vida comercial, praia da Polana, etc.»), Lourenço Marques, 1929.

A cidade colonial comportava, desde o seu início, uma importante comunidade indiana. O censo de 1894 indicava a existência de 245 indianos (23% da população «civilizada»), dos quais 151 eram muçulmanos e 59 hindus. Após 1910, a sua proporção em relação à população «civilizada» diminui, mas a comunidade cresceu em números absolutos: em 1912 Lourenço Marques contava com 848 indivíduos indo-britânicos e em 1928 tal número ascendeu a 1974 pessoas.
A existência de uma tão forte comunidade de indo-britânicos — assim formalmente designados em alguma documentação oficial da época mas mais frequentemente apelidados de «monhés» — ficou-se a dever a dois factores: o primeiro pode ser encarado como uma extensão, para sul, dos interesses comerciais estabelecidos mais acima por toda a costa da África Oriental; o segundo, mais significativo, relaciona-se com a já aqui explicada articulação da região sul de Moçambique com a economia das colónias britânicas vizinhas.
Maioritariamente dedicavam-se ao comércio, circunscritos à Rua da Gávea e às suas seis travessas: da Palmeira, da Porta, da Linha, da Catembe, da Laranjeira e da Fonte. Em 1894, na novel cidade colonial, 189 elementos (77%) da população indo-britânica residia e comerciava nessas ruas.
O seu peso no comércio local era enorme e a disputa com o comércio nas mãos de europeus foi uma constante durante todo o período colonial. Excluídos das associações comerciais e de lojistas da cidade, foram alvo de diversas medidas restritivas por parte do governo da colónia que, assim, procurava corresponder às constantes solicitações da Associação Comercial de Lourenço Marques. Não podendo afectar os comerciantes indo-britânicos já estabelecidos, até porque constituía a sua actividade uma fatia importante da receita fiscal da colónia, em 1899 chegou a ser proibida a entrada de indo-britânicos, medida anulada no ano seguinte. Em 1907, uma disposição legislativa exigia o pagamento de 30$00 réis para poderem desembarcar no porto, mesmo quando o seu destino fosse a África do Sul. Em 1912 o governo da colónia faz publicar um «Regulamento de Polícia de Entrada de Asiáticos», tão restritivo à sua entrada e circulação que perante o protesto das autoridades consulares inglesas foi revogado passados poucos meses. Em 1913 surge o «Regulamento para a polícia e fiscalização da entrada de asiáticos e equiparados nos territórios da Província de Moçambique sob a directa administração do Estado», no qual a discriminação era atenuada mas instituindo uma série complexa de procedimentos administrativos burocráticos cujo objectivo final era colocar o maior número possível de entraves à entrada, circulação e estabelecimento de comerciantes asiáticos.
Esta constante e arreigada discriminação dos comerciantes asiáticos, assim legislada nos primeiros anos da República, não era algo de inteiramente novo. António Enes, o comissário régio responsável pelo lançamento e consolidação das bases da administração colonial em Moçambique proclamava reiteradamente ao longo das páginas do seu afamado Relatório esse mesmo preconceito racial. Começando por veicular a opinião corrente entre os comerciantes europeus de que a principal causa do atraso da colónia era invasão dos comerciantes asiáticos «densos e vorazes como gafanhotos», Enes faz desfilar ao longo de quase uma dezena de páginas [1893, Relatório apresentado ao Governo, Lisboa, Imprensa Nacional, pp. 51-59] uma sucessão impressionante de enunciados preconceituosos, apenas quebrada quando o autor se apresta a reconhecer que se tratava de uma comunidade pacífica e obediente, muito importante no desenvolvimento da rede comercial da colónia.
Não menos preconceituoso e racista um outro autor, logo nos primeiros anos da República, descreve nestes termos a comunidade indiana de Lourenço Marques:
«... as suas habitações, pequeníssimas e imundas, sem ar nem luz, verdadeiras luras repelentes onde habitam grande número de pessoas, são sempre nos sítios mais escusos, mais retirados e esquecidos, o que tudo fazem por uma sórdida economia. Juntamente com infinita variedade de mercadorias, amontoam os móveis domésticos, os catres, e durante a noite é no pavimento, nos balcões, por cima das mercadorias que dormem patrões e empregados (...) de génio bastante servil e adulador, ao serviço de uma cupidez insaciável e mesquinha, são de uma psicologia notavelmente acanhada e de uma moral muito degenerada. Astuto e de grande esperteza para o pequeno comércio, desenvolve uma extraordinária habilidade na escamoteação de quantas pequenas moedas sonha no bolso dos indígenas», [Padre Daniel da Cruz, 1910, Em Terras de Gaza, Lisboa Gazeta das Aldeias, p. 305].
Já nos anos 70 o grande historiador moçambicano Alexandre Lobato narrava de forma completamente díspar o ambiente na Rua da Gávea:
«Paira no ambiente um cheiro doce e forte a especiaria, dos cozinhados do Oriente que se preparam nos telheiros dos quintais acanhados. As travessas e a rua são estreitas e debruadas de estreitíssimos passeios, como em Diu. Muitos prédios são ainda primitivos, dum só piso com cimalha, paredes grossas de pedra, janelas estreitas com taipais antigos e cadeados da Índia, portas grossas com ferrolhos enormes, frestas altas gradadas da rua para os quartos escuros. Os muros dos saguões são todos altos, com pequenas portas para os pátios estreitos onde, por vezes, se abrem poços fundos, antigos. Alcandoram-se, entre os muros, escadinhas, cubículos anexos, terraços e varandins, por entre papaeiras e plantas aromáticas de jardim, que os orientais cultivam sempre. Mas já não há palmeiras compondo os ambientes frescos, onde era calma a existência secular em negócio para a rua na sala de entrada e vida para o pátio nos quartos de trás, com a mercadoria por entre a família, e a forrar as prateleiras da loja», [Alexandre Lobato, 1970, Lourenço Marques, Xilunguíne, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, p. 193].

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